Blog de José Truda Palazzo Jr., o Maluco da Baleia
   TÔ VIVO!

Verdade que nos últimos tempos ando meio sem saco pra escrever... haja incomodação com esse Projeto baleia Franca que tocamos, a canalha política e os maus empresários da região fazendo estardalhaço contra as novas normas de regulamentação do turismo embarcado de observação de baleias... é tudo uma sem-vergonhice que tira o saco do sujeito. Mas daqui a pouco volto a escrever... contar umas viagens, algo assim. Só pra dar risada dos que mofam parados...

 



Escrito por JTruda às 21h42
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Brasil segue Firme contra os Assassinos das Baleias

Fiquei feliz com esta:

Nesta segunda-feira, 17 de janeiro, o Embaixador do Brasil em Tóquio entregou ao governo japonês um protesto formal em nome dos governos de 17 países contra a continuidade da matança de baleias no Santuário da Antártida pela frota baleeira japonesa, que continua caçando esses animais em franca violação da moratória internacional e do Santuário, sob o falso pretexto da "caça científica".

Além do Brasil, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Brasil, Finlândia, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Luixemburgo, México, Nova Zelândia, Portugal, Espanha, Suécia e Inglaterra somaram-se à "demarche" diplomática.

Segundo José Truda Palazzo Jr., Vice-Comissário do Brasil junto à Comissão Internacional da Baleia, e casualmente dono deste blog, "a condenação vigorosa dos abusos do Japão na Antártida se faz necessária como parte da luta para impedir que os baleeiros sigam massacrando as baleias no Hemisfério Sul. A falsa pesquisa japonesa é uma vergonha para a verdadeira Ciência e serve exclusivamente para manter o mercado japonês abastecido de carne e gordura de baleia, produtos que aquele país hiperdesenvolvido não mais necessita para satisfazer as suas necessidades alimentares. É hora de darmos um basta a essa barbárie", acrescentou Palazzo.

Em fevereiro a CIB se reúne extraordinariamente poara analisar o estado atual das negociações sobre a eventual volta da caça comercial de baleias, mas o Brasil e vários outros países do hemisfério Sul já disseram que não serão favoráveis à conclusão de qualquer negociação se o Japão não cessar a sua matança ilegal.

E enquanto isso, há uma cabalha que defende a continuidade dessa matança... inclusive aqui no Brasil, uns "cientistas" cafajestes fazem lobby no MMA e arredores pra que o Brasil seja menos vigoroso na defesa das baleias. Fazem isso pra lamber as botas de seus mentores estrangeiros, que vivem na cama com os baleeiros pra conseguir benesses e trocar favorzinhos. São prostitutas, se essas me perdoam a comparação.



Escrito por JTruda às 10h01
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Para o Ano Novo...

Que as pulgas de mil camelos

infestem os seus sovacos.

Esta antiga maldição árabe é o meu desejo para toda a canalha que nos (des)governa com roubalheira, vagabundagem e desrespeito com o nosso patrimônio natural.

Quem quiser dar "Feliz Ano Novo" comk a hipocrisia habitual que o faça, mas prefiro aproveitar as datas festivas para jogar uma macumba nos desgraçados.

Essa, a propósito, é minha opinião sobre Roma - uma cidade suja, barulhenta, de gente grossa, em que os fantásticos monumentos arqueológicos foram primeiro cobertos de capelas, igrejas e outras porcarias cristãs, e depois cercadas de autopistas como as que passam a um metro do Coliseu. Quem fez isso devia ir pra cadeia... mas lá é meio como aqui.



Escrito por JTruda às 15h44
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Filis Natáu

Essa é uma época de se receber muita hipocrisia pelo correio. Mesnagens lindinhas vheias de anjinhos e a paz eo amor e etc. etc., muitas vindas de gente que preferiria te ver morto (ou que gostarias de ver morto, anyway).

Estou tendo a sorte de receber muitas esse ano de gente que presta. A melhor de todas veio de um amigo numa estatal... em que o papai Noel mostra bem o que se deve fazer: mandar o convencional para o diabo e tratar de se ser feliz do jeito que quiser. Taí o Bão Véinho finalmente livre:



Escrito por JTruda às 13h57
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Bombardeando a Natureza

Esse lugar de beleza ímpar e diversidade biológica idem é Alcatrazes, um arquipélago ao largo de São Paulo onde a Marinha brasileira tem a "bela" idéia de fazer seus exercício de tiro. Semana passada, o Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA, na sua habitual falta de noção, liberaram a continuidade dessa prática cretina, que estava proibida.

É simplesmente criminoso o tratamento institucional que o Estado dá ao patrimônio natural. Se partir do pressuposto de que um lugar ímpar do ponto de vista biológico E turístico como Alcatrazes pode ter o tratamento de alvo de tiro é um absurdo sem tamanho. Em não se conferir proteção legal específica, amanhã pode o Sr. Ministro da Defesa determinar que os exercícios sejam outra coisa mais impactante que não o tiro bobo da Segunda Guerra Mundial que se pratica hoje, e onde estará o remédio para evitar os danos?

Não se questiona que a Marinha precise de exercícios efetivos. Mas sejamos sérios: estamos falando de uma Marinha sucateada, sem recurso para o diesel, que compra porta-aviões velho pra fazer inveja aos argentinos e não consegue manter uma patrulha naval pra acabar com a pesca pirata que vem estuprando a nossa (hoje tão propalada) "Amazônia Azul". Querer alegar que a preparação da Marinha depende de bombardear Alcatrazes é tapar o sol com a peneira, e ainda querer dar com a peneira na cabeça de uma velhinha que vem passando (no caso a Ministra Marina Silva, coitada).
 
Se o País quer ter um sistema de Áreas Protegidas decente, é apenas natural que não se permita usar os locais mais importantes dos pontos de vista biológico E turístico (porque não? turismo bem controlado é possível e traz dividendos econômicos legítimos com a conservação) pra depósito de lixo, festa rave ou tiroteio de sucatões. Sejamos realistas, isso só serve pra esquentar o ego de meia dúzia de comandantes incompetentes, que lutam da forma errada pra resgatar uma Marinha que se contenta com essas migalhas simbólicas e daninhas ao invés de se transformar numa força de defesa do Mar Brasileiro, que é o que precisamos.
 
É impossível aguentar que essas coisas aconteçam, perpetuando tanto a degradação ambiental como a Marinha sucateada. É um fingimento generalizado que tem de acabar, senão o Brasil não melhora.


Escrito por JTruda às 08h04
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Origens da Loucura, parte 3 (e chega!)

Faltou contar um pequeno pedaço da história. O estímulo e os meios para transformar a minha indignação em trabalho não vieram de nenhum Biólogo ou militante ativo, mas sim de um economista: meu pai José Truda Palazzo. Assumidamente reacionário e direitista (o meu conservadorismo vem dele, com muito orgulho), bancário de carreira e aparentemente sem o menor vínculo com o mundo natural, ele teve na juventude o privilégio de conviver com os últimos grandes cientistas e naturalistas jesuítas, no tempo em que alguém ainda prestava na Igreja Católica Apostólica Romana: alguns poucos dentre os padres do Colégio Anchieta de Porto Alegre. Cheguei a conhecer o Padre Pio Buck, um pesquisador diletante que mantinha ainda no novo prédio do Anchieta, onde fingi que estudei durante onze anos, uma maravilhosa coleção de aranhas caranguejeiras vivas. Quando meu pai me levava para visitá-lo, o Padre Pio gentilmente tirava das caixinhas de vidro uma de suas “filhas” e a passeava pelo braço, para meu pavor e admiração simultâneos. É dele o meu primeiro exemplo de amor incondicional à Natureza em todas as suas formas e manfestações, sem o maniqueísmo estético dos “bichinhos bonitinhos” que caracteriza tanto do superficialismo dos que se dizem ecologistas pelos dias atuais.

Foi outro jesuíta, entretanto, o que teve maior impacto no despertar do entusiasmo de meu pai pela Natureza, e ele teria uma similar importância na formação do pensamento naturalista e ambientalista do Rio Grande do Sul, inclusive influenciando Lutzemberger e Augusto Carneiro: o Padre Balduíno Rambo, professor e escritor, autor da antológica Fisionomia do Rio Grande do Sul publicada nos idos de 1950 e com quem meu pai realizava memoráveis excursões de campo quando era estudante secundarista.

Inspirado sem dúvida pelas suas próprias experiências, o velho Palazzo não poupou nunca esforços para incentivar-me a seguir meu caminho ambientalista. Ao contrário de tantos pais e mães, a ele não interessava se a minha futura “profissão” (naquele tempo a família alentava a esperança de me ver formado em alguma coisa) pagava gordos salários ou não; o único conselho dele era para que eu fosse competente naquilo que me propunha a ser, não importava se médico ou caminhoneiro. O pai me pagava quilos e quilos de livros no começo, depois arcava com as minhas primeiras viagens a serviço do “movimento”, e suportava no final do mês as minhas contas de desempregado útil, quando já há muito eu tinha deixado de ser adolescente ou “estudante” nos vários cursos universitários em que aprendi que a “universidade” moderna é em grande parte um engodo teatral. Mesmo nos seus últimos anos, já quase confinado à poltrona verde da sala com o seu radinho e as pilhas de gordura de salaminho que ele separava por causa do colesterol e esquecia no pé do abajur, ele acompanhava de perto as minhas agitações, conhecia os meus companheiros de luta no Brasil e Exterior pelo nome, e se interessava vivamente pelo que eu fazia e contava. Quando ele morreu, em setembro de 1994, eu estava “a campo” em Santa Catarina, tocando a duras penas o Projeto Baleia Franca, e na véspera nem havíamos nos despedido decentemente, eu na minha habitual correria, sempre esbaforido com alguma outra obrigação. Dele ficaram uma gratidão imensa por tudo que fiz e que sou, e uma saudade que vai doer sempre enquanto eu viver. Ao longo dos anos seguintes, minha mãe Ilka pagaria ainda com a sua pensão de viúva – e o desgosto de ver a sala do apartamento tomada de caixotes e papéis - boa parte dos custos de manter o Projeto Baleia Franca vivo.

No correr dos anos, o que se sucedeu foi uma bola de neve rolando morro abaixo, com contatos frequentes com a aguerrida União em Defesa das Baleias, de SP, da qual virei “representação estadual” no RS; telexes e telegramas (naquele tempo, meus netinhos, não existia fax, muito menos Internet!) desaforados à (felizmente extinta) Superintendência do Desenvolvimento da Pesca, que promovia a caça de baleias para os japoneses, para deputados, senadores, e entidades do Exterior pedindo apoio. Nesse meio tempo, um novo amigo conquistado em 1979, o Vice-Almirante Ibsen de Gusmão Câmara, faria nascer o Projeto Baleia Franca, sobre o qual vocês podem ler mais em www.baleiafranca.org.br .



Escrito por JTruda às 11h08
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Origens da Loucura, parte 2

Fala sério... o mais engraçado desse troço de blog é ter de ler de baixo pra cima pra fazer qualquer sentido. Deve ser reflexo da tal de modernidade. Mas vamos em frente.

 

-         Este jovem vai trabalhar com as baleias!

 

Muitos anos depois, num dos churrascos ou galetos a que fomos juntos pelo Rio Grande afora, o “velhinho” porém energético e totalmente jovem Augusto César Cunha Carneiro não conseguiu me dar uma explicação lógica para aquele gesto profético. Mas o fato é que naquela noite ele me passou as primeiras informações que recebi na minha vida sobre a matança das baleias, que ameaçava exterminar totalmente com várias espécies desses magníficos animais, e mais: ele iluminou minha ignorância com a informação de que o massacre acontecia aqui mesmo no Brasil, praticado por uma empresa japonesa, a “COPESBRA” (fachada da Nippon Reizo Kabashiki Kaisha), instalada à sombra dos políticos corruptos e dos governos  da época no litoral da Paraíba, de onde navios japoneses com comandante e arpoador japonês partiam para atacar várias espécies em sua área brasileira de reprodução. Àquela altura, a última baleia azul vista viva no Brasil já tinha sido exterminada, em 1965, e as demais espécies estavam indo à breca rapidamente. Carneiro me passou naquela noite os primeiros abaixo-assinados que distribuí, e com aquilo fui à rua cavar apoios para terminar com a caça à baleia no Brasil, unindo-me a um crescente número de brasileiros indignados com aquilo.

Augusto Carneiro: aos 82 anos, o mais jovem e importante ambientalista do RS.

 

Carneiro teria ao longo de toda a minha (e da sua admirável e produtiva) vida uma influência vital, ao mesmo tempo informativa – pelas literalmente centenas de livros que pôs à minha disposição - e ideológica. Foi dele que herdei a intolerância com os corruptos, a intransigência com os depredadores da Natureza, a noção de santidade dos parques e áreas naturais protegidas, o amor às árvores e, last but not least, a língua bífida e a noção de que ser desbocado, agressivo e franco é essencial à militância ambientalista. Se bem que as circunstâncias dos meus caminhos mais recentes tenham me obrigado a moderar os desaforos, o espírito de Augusto Carneiro, que felizmente ainda está bem vivo e lutando pela Natureza enquanto escrevo, me alimenta diariamente em todas as batalhas.



Escrito por JTruda às 15h14
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Origens da Loucura

 

            É difícil precisar quando é que nasceu em mim essa sina de afeto à Natureza, mas certamente está lá pelos primeiros anos da década de 1970, enquanto assistia a minha irmã Miriam labutar nas suas atividades de estudante de História Natural – um curso “superior” que já não era grande coisa à época nas universidades brasileiras, mas que certamente piorou quando foi transformado em Biologia, tirando do ensino em definitivo a visão sistêmica dos grandes naturalistas – Darwin, Saint-Hilaire, von Martius –  e promovendo o cartesianismo burro e assassino, que obriga os estudantes a esquartejar animais e plantas em aula mas que é incapaz de mostrar, até hoje e em muitas universidades indignas do nome, as funções, comportamentos e fantásticas adaptações evolutivas das criaturas vivas de uma maneira que possa interessar aos jovens estudantes. A Biologia academicista é inimiga da conservação.

            Mas eu dizia... que lá pelos idos dos 70 começou o meu interesse pela Natureza, alimentado pela observação das lides biológicas de minha irmã do meio e pelo costume de leitura da família Palazzo, que eu praticava aproveitando-me dos perdidos momentos sentado na patente (ou vaso, como dizem os paulistas) pra folhear enciclopédias. Ainda hoje me dá remorso quando não posso trancar-me no banheiro com uma leitura decente (as indecentes ficaram para as memórias da adolescência).

            O final da década de 70 representou para o movimento “ecológico” (ou ambientalista, ou conservacionista, ou ecologista conforme a filiação ideológica de quem o descreve, tudo uma bobajada semântica que não interessa) um período de ebulição e crescimento, principalmente no sul do Brasil, quando o saudoso porém difícil José Lutzemberger fazia regulares aparições bombásticas na imprensa semi-amordaçada pela ditadura, fosse xingando os agrotóxicos ou as podas de árvores, fosse promovendo o Parque da Guarita, em Torres/RS, com sua sunga vanguardista e para a época escandalosa (Gabeira e sua tanga de crochê dos anos 80 nada mais foram do que um mal disfarçado exibicionismo dejà vu). Foi nesse momento, lá pelos meus 15 anos, em que o meu interesse pelo mundo natural teve a oportunidade de tornar-se militância, com um contato telefônico que fiz com o (então já) velho Lutz em Porto Alegre. Lutz atendeu-me muito pacientemente (coisa que ficaria cada vez mais rara em sua personalidade nos anos posteriores) e me convidou a uma reunião semanal da buliçosa AGAPAN, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, sem dúvida à época a mais importante entidade ambientalista brasileira (fato zelosamente minimizado ou simplesmente deletado pelos modernos cronistas paulistas do “movimento”) pelas suas campanhas barulhentas e agressivas contra... bem, tudo, de podas de árvores à energia nuclear.

 

            Foi assim que numa noite de segunda-feira em maio de 1978 me vi sentado numa enorme sala de um prédio velho da Rua dos Andradas, no centro de Porto Alegre, na sede que a AGAPAN dividia com a Sociedade dos Poetas e o Círculo Gaúcho dos Orquidófilos. Enquanto plantas meio mal cuidadas se agarravam à vida num canto escuro da sala, e poetas felizmente mal sucedidos editorialmente declamavam as suas porcarias versiculadas em um velho conjunto de poltronas e sofás de outro lado, eu esperava aturdido a reunião começar, quando um velhinho agitado que carregava uma surrada pasta de couro sob o braço e distribuía papéis aos presentes parou de sopetão à minha frente e me lançou sonoramente a maldição que iria me acompanhar por toda a vida:

 

(continua amanhã, se o meu pé esquerdo não melhorar e eu continuar de molho!)

 

 

 



Escrito por JTruda às 22h15
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Uma Vida Incomum

Bonaire, Caribe holandês, abril de 2005

 

Quando falava, os seus temas de conversa eram

as árvores, a Natureza e coisas parecidas.
 
Todos pensávamos que lhe faltava um parafuso.
 

            Essas esclarecedoras palavras, ditas por uma empregada do McDonald’s de Bullhead City, no Arizona, a respeito de um jovem empregado andarilho que vivia para celebrar o contato com a Natureza, dizem muito a respeito da sociedade humana em qualquer lugar do planeta, e como as pessoas que se acham normais vêem a nós outros, os pouquíssimos que conseguem passar pela vida sem se deixar enredar nas teias nojentas do comum e do rotineiro – a vida na cidade, o gosto pelo supérfluo, o culto à idiotice e à mesmice.

            Chris McCandless, o jovem a quem a debilóide do fast-food se referia, morreu em 1992 no Alaska, aos 24 anos, depois de ter abandonado a vida comum de americano médio e de ter se internado nas imensidões selvagens de seu país em busca de si mesmo. Encontrou a morte, mas também a realização plena enquanto vivia, nas muitas manifestações do mundo natural que nos cercam diariamente, mas que as nossas couraças de civilização nos impedem de ver, e as nossas mordaças de gente “normal” nos impedem de celebrar, sob pena de sermos transformados em excentricidades de circo, nas conversas que muitos dos que nos cercam fazem invariavelmente às nossas costas.

            Melhor sorte me foi reservada que a de McCandless; desde que nasci, fui tolerado nas minhas excentricidades pela minha família, que ao mesmo tempo em que me deu liberdade para me transformar em ambientalista, me contaminou com doses indeléveis de bom senso e bom gosto – o suficiente para impedir que me matasse numa trilha abandonada, que nem aquele pobre guri americano, e para que eu saiba desfrutar do prazer de uma praia deserta no inverno, certo, mas também de uma suíte decente do Santiago Crowne Plaza e do bom vinho chileno no frigobar. Para que eu possa apreciar o incomparável por-do-sol sobre o Atlântico Sul desbordando seus reflexos dourados sobre a Table Mountain, na Cidade do Cabo, saboreando uma boa dúzia de ostras no Waterfront para me recuperar dos muitos quilômetros andados durante o dia. O custo disso? Passar a maior parte do tempo comendo a salsichinha empanada na rodoviária de Tubarão, amargando o buzum convencional pra 5,6 horas de BR-101 pra alternar reuniões e trabalho com umas mixas horas em família, pelear com o gerente do banco sobre o cheque especial estourado, trotar que nem um idiota entre empresários sem o menor escrúpulo nem visão para esmolar recursos para os nossos projetos de conservação. Agora... vale a pena? No meu caso, acho que sim.

            Este espaço virtual é, pois, uma celebração do mundo em que vivo, mas também um monumento à realização – divertidíssima pra mim, ao menos – da minha caminhada decididamente anormal pelo planeta Terra. Acabei por sucumbir aos muitos amigos que me incitaram a escrever algumas das minhas memórias, de preferência antes de ficar completamente caduco, o que segundo alguns já vem acontecendo de há tempos. O primeiro rascunho de um livro a respeito chamava-se “Aspargos no Quênia”, em função de um episódio surreal num restaurante de Nairobi que, quem sabe, ainda conte uma hora destas. Eu ia escrever um livro de memórias, mas o formato de quase-blog  quem sabe reflita melhor a fabulosa diversidade de experiências que me foram presenteadas pela vida de ambientalista muito pouco convencional. A culpa final dessas linhas é, entretanto, do incomparável Marcos Sá Corrêa, que à parte jornalista heterodoxo se diverte à rodo inventando maneiras de fazer os ativistas ambientais exporem suas idéias, mazelas e más linhas, na certeza de que o resultado é bom pra conservação e pra conscientização dos gentios. A ver.

Aos causos de viagem e de memória, minha idéia é acrescentar reflexões sobre temas interessantes de conservação, além de, claro, como vejo o Mundo e as barbaridades que estamos fazendo com ele, sem nenhuma preocupação de ser politicamente correto. Não é esse diário pessoal nem guia, nem sermão – não há nele uma linha de pretensão no sentido de fazer amigos e influenciar pessoas, já que cada vivente sabe onde lhe aperta o sapato e o que lhe sai melhor para uma existência feliz e (às vezes) até produtiva. Mas ele é, sim, um livro de contabilidade, creio eu capaz de demonstrar que ser pária da sociedade, maluco e defensor da Natureza dá mais alegrias que tristezas, apesar dos pesares. E que, como dizia meu amigo Jorge Maluco Eisenhut, a modéstia é a arma dos ineptos. Aqui, imodestamente, mostro um pouco como eu gosto do que fiz nesses primeiros quarenta e poucos anos de atropelos e correrias da Antártida à Islândia. E... ai de quem estiver por perto nos próximos 40!



Escrito por JTruda às 10h00
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